ROMANCE (trecho inicial)

Yan Andréa Steiner*



Antes de tudo, no começo da história aqui contada, India Song foi apresentado numa sala de cinema experimental e de arte nessa grande cidade onde você vivia. Depois do filme você participou de um debate. E depois do debate nós fomos a um bar com os jovens professores de filosofia, entre is quais você estava. Depois, bem depois, você me lembrou a existência desse bar, bastante elegante, , agradável, e disse que nessa noite eu bebi dois uísques. Eu não me lembrava mais desses uísques, nem de você, nem dos outros jovens professores, nem do lugar. Lembrava-me, ou pelo menos tinha essa impressão, de que você me acompanhara até o estacionamento do cinema onde estava meu carro. Eu tinha aquele adorável Renault 16, que dirigia ainda mais rápido naquela época, mesmo depois dos problemas de saúde causados pela bebida. Você me perguntou a que velocidade eu dirigia à noite. Eu disse 140. Como todo mundo com um Renault 16. O que era magnífico.

Foi depois dessa noitada que você começou a me escrever cartas. Muitas cartas. Às vezes uma por dia. . Eram bem curtas, espécies de bilhetes, quase apelos gritados de um lugar invivível, mortal, de uma espécie de deserto. Esses apelos eram de uma beleza evidente.

Eu não lhe respondia.
Guardava todas as cartas.
No alto das páginas aparecia o nome do lugar onde elas haviam sido escritas e a hora ou o tempo: Sol ou Chuva. Ou frio. Ou: Sozinho.

Numa ocasião, depois, você ficou muito tempo sem escrever. Um mês, talvez. Não sei mais quanto esse tempo durou.

Então, por minha vez, no vazio deixado por você, essa ausência de cartas, de apelos, eu lhe escrevi opara saber por que você não escrevia mais, por que parara de repente, por que deixara de escrever, como se tivesse sido violentamente interrompido de fazê-lo, pela morte por exemplo.

Eu lhe escrevi esta carta:

Yann Andréa, neste verão encontrei uma pessoa que você conhece, Jean-Pierre Ceton, falamos sobre você, eu nunca poderia imaginar que se conheciam. E depois houve o seu bilhete debaixo de minha porta, em Paris, após a exibição de Navire Night. Tentei lhe telefonar, não encontrei o número de seu telefone. E depois houve a sua carta de janeiro - eu estava mais uma vez no hospital, de novo doente, não sabia bem de quê, disseram-me que envenenada pelos novos medicamentos ditos antidepressivos. Sempre o mesmo refrão. Não era nada, o coração não tinha nada, eu nem mesmo estava triste, estava chegando ao fim de alguma coisa, só isso. Ainda bebia, sim, no inverno, à noite. Já havia vários anos eu dizia aos meus amigos para não virem mais nos fins de semana, eu vivia só na casa de Neauphle, onde poderiam viver dez pessoas. Sozinha em quatorze peças. A gente se habitua a ouvir a ressonância. É isso. Depois, uma vez eu lhe escrevera para dizer que acabava de terminar um filme, Son Nom de Venise dans Calcutta désert, não sei mais muito bem o que lhe dizia, sem dúvida que o adorava, como adoro quase todos os meus filmes. Você não respondeu a essa carta. E depois houve os poemas que você me enviou, alguns deles me pareceram muito bons, outros menos, e isso eu não sabia como lhe dizer. É isso. É isso, sim. As suas cartas eram os seus poemas. Suas cartas são belas, as mais belas de toda a minha vida, e me pareciam dolorosas. Eu queria flar com você hoje, estou um pouco convalescente, mas escrevo. Trabalho. Acho que o segundo Aurélia Steiner foi escrito para você. 

 

*Parágrafos iniciais do livro "Yann Andréa Steiner" (Editora Nova Fronteira - 1993), com tradução de Maria Ignez Duque Estrada, obra que integra a biblioteca tyrannus

divulgação

duras

A francesa Marguerite Duras (1914 - 1996) é apontada como uma das principais vozes femininas da literatura europeia do século 20. Nasceu na Indochina, hoje Vietnã, mas radicou-se em Paris nos anos 1930. Foi romancista, novelista, roteirista, poetisa, diretora de cinema e dramaturga. Escreveu o roteiro do filme "Hiroshima mon amour" (1959), baseado em romance homônimo de sua autoria, dirigido por Alain Resnais. Seu romance mais famoso é "O amante" (1984). Escreveu também, entre outros, os romances "A dor" (1985), "O deslumbramento" (1986), "Chuvas de verão" (1990) e "O amante da China do Norte" (1991)

 


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