PROSA

Um trio baiano*



Dizem que baiano não nasce... estreia. E eu concordo um pouco com isso. Um pouco, porque não está direito encher muito a bola de ninguéns. Um pouco pra que a baianada não fique muito “toceira”, expressão do dialeto cuiabanês que quer dizer metido. Metido demais.

Gosto da Bahia e das artes que brotam nesse estado desde sempre. E escrevo a crônica de hoje, principalmente, por dois motivos. A foto que achei, quando procurava não sei o quê na web, e pelo fato

Ubaldo e Glauber, na Bahia, onde tudo começou. Acervo Sante Scaldoferri

de ela ter avivado em minha memória um documentário que assisti com João Ubaldo Ribeiro, onde ele mencionou um encontro que teve com Glauber e Jorge Amado.

Ubaldo, com aquele jeito de falar tão gostoso de se ouvir, como também é pronta pra leitura prazerosa a sua letra. Minha memória não consegue recuperar os detalhes do documentário. Mas pelo menos uma passagem, um causo que ele contou, esse, jamais me esquecerei. O fato aconteceu, creio, no Rio, no seu apartamento.

E não sei se foi armação ou coincidência, mas a verdade é que Glauber estava em visita à residência de Ubaldo. O cineasta, tão genial quanto doido, alugava fervorosamente a cabeça do amigo. A amizade entre os dois era coisa de tempos bem mais antigos, lá na Bahia, quando os dois se adentravam nas artes.

E os dois também compartilhavam de amizades com outro grande artista baiano, Jorge Amado. Um escritor de geração anterior a de Ubaldo e Glauber. E me ponho a pensar como teria sido o encontro entre esses três ícones da cultura brasileira, já que o encontro desse trio porreta foi apenas um detalhe do documentário.

Jorge Amado chegou depois de Glauber. E essa visitação toda foi narrada por Ubaldo, contando com a sua memória,

"Glauber, veja bem o que você vai me propor no apartamento do João Ubaldo no futuro" (http://laprovitera.blogspot.com/)

apenas. E chega aqui através da minha memória. Ora, memórias, ainda mais depois de um certo tempo, quando a gente já viveu bastante, vais e tornando cada vez mais algo como um queijo suíço. Cheio de furos.

Mas, quando escrevemos a partir da memória, puramente, existe um gênero salvador (capital da Bahia), que é a crônica. Texto de flexível permissividade, quando se trata de relatar a verdade, nada mais do que a verdade.

“Jorge Amado vem aí”, disse Ubaldo a Glauber, enquanto a conversação entre ambos se adiantava. Talvez, isso não ficou claro, mas essa frase do escritor, poderia ser um aviso para que Glauber se portasse de forma mais contida. É

 "Jorge, eu não tenho nada a ver com a proposta do Glauber" (http://digitalamado.com/)

que qualquer um que tem amizade com pessoas extrovertidas e, às vezes, “despiroquetas”, sabe bem que a aceitação de comportamentos mais exacerbados não é muito comum nas relações sociais.

Olha, pelo que Ubaldo disse, o aviso da chegada de Amado a Glauber, foi aquilo que chamamos de um “tiro pela culatra”, para o desespero do anfitrião. Ubaldo narrou o episódio de forma bem humorada, mas foi possível perceber o apuro pelo qual ele passou. Senão, vejamos...

“Ótimo... vamos preparar um baseado, pra fumar com ele quando chegar”. A ousada proposta de Glauber pegou Ubaldo de surpresa que, por sua vez e com o perdão da frase, ficou com o cu na mão. Mas, não se fez de rogado.

“Eu não... se quiser, vá lá na área de serviço e fume o seu baseado”. Foi mais ou menos essa a resposta que Ubaldo deu a Glauber. E a coisa ficou por aí mesmo, se é que me lembro bem. Ou mal.

E não foi dessa vez que os três artistas baianos fumaram “unzinho”. Lá onde estão agora, vai saber o que andam fazendo...



ABAIXO, chamada e imagem publicadas na capa na edição original desta crônica

adonias filho, antônio torres, armandinho, assis valente, bethânia, caetano, carlinhos brown, castro alves, caymmi, dias gomes, gal, gil, gregório de matos, joão gilberto, moraes, pepeu, raulzito, ruy barbosa, tom zé, waldick soriano, waldomiro de deus, waly salomão... (vamos botar alguns importados)... carybé, smetak. Sacou, né?! São artistas nascidos ou adotados pela Bahia. Falta gente como esses dois da foto e um que era “amado”. O papo de hoje é um encontro desse trio...

*Crônica publicada originalmente em fevereiro de 2015

João Ubaldo e Glauber em foto que foi combustível para esta crônica


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2 Comentrio(s).
E o Tyrannus emenda com a primeira estrofe da música de outro baiano, Pepeu Gomes, “O mal é o que sai da boca do homem”, que diz assim: “Você pode fumar baseado / baseado em que você pode fazer quase tudo / contanto que você possua / mas não seja possuído”. Sei não... rock e jererê... tudo coisa do diabo. Acho que Padre Vieira não ia gostar.
enviada por: tyrannus    Data: 09/02/2015 22:10:37
Aclyse de Mattos, cuiabano das letras, via facebook, enviou um comentário `baianifications´: “sem falar que o ídolo de Ubaldo era o baianíssimo Padre Antonio Vieira – agora baseado em que”
enviada por: tyrannus    Data: 09/02/2015 22:10:22

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