Quinta, 04 de fevereiro de 2021, 17h39
RESENHA
A música como elemento de união

Helvio Moraes*

karen malagoli

brasilis

Os 15 anos do Trio Brasilis foram comemorados em grande estilo

Na noite da última sexta-feira (29/01) a cantora e produtora musical Deize Águena, a cantora e percussionista Juliane Grisólia e o violonista Rúsivel de Jesus, integrantes do Trio Brasilis, subiram ao palco armado no estacionamento do Teatro do Cerrado Zulmira Canavarros para apresentarem um show idealizado especialmente para a comemoração dos 15 anos de atividade musical do trio.

Nem a ameaça de chuva que pairava sobre Cuiabá desde o fim da tarde, nem o novo formato de show – em sistema de drive-in – a que tivemos que nos acostumar no último ano, em razão da pandemia de COVID-19, tiraram o brilho e a energia do espetáculo oferecido pelos talentosos artistas e seus convidados: Rodrigo Rocha, na percussão; Tony Maia, no sopro; e Wender Couto, na bateria.

Luzes altas intermitentes e buzinas substituíram os aplausos, mas não houve quem não ousasse, ainda que com muita precaução, abrir as portas do veículo para cantar e ensaiar uns passos de samba ao longo da apresentação e, ao final, ovacionar os músicos e acenar com as mãos para a foto de encerramento do show. A todos estes novos gestos e sinais, os artistas reagiram com muita naturalidade e entrosamento.

A ideia-síntese do espetáculo, dentre tantas mensagens presentes nas letras, interpretações e arranjos, foi o poder da música como agente aglutinador, como elemento de união, de (trans)formação pessoal e coletiva, já implícita no projeto do show e no texto de release (“três histórias que se cruzaram na música e criaram laços que vão além dos palcos”). Neste sentido, desde o início a música é vista como profissão de fé. No afetuoso e espontâneo vídeo-depoimento, exibido antes do show propriamente dito, Juliane Grisólia afirma que não consegue pensar o mundo, as alegrias e tristezas da vida, fora do universo musical, tampouco acredita poder fazer algo que não esteja diretamente relacionado com a música. Rúsivel de Jesus acrescenta que não há um dia sequer em que não se dedica ao seu ofício, e Deize Águena fala de seu trabalho de pesquisa musical, de seu amplo interesse nas mais diversas manisfestações e gêneros musicais, vistos na perspectiva de uma mulher que fala de Cuiabá e que participa ativamente de grupos e ações com foco na conquista dos direitos das mulheres.

Pois bem: num show em que se comemorou 15 anos de trabalho musical e coletivo, nada mais apropriado do que começar cantando sobre a força da passagem do tempo e o poder perene que a música tem de aquecer corações, metaforizados na terna imagem do sapato velho que ainda pode aquecer o frio dos pés, em Sapato Velho (Cláudio Nucci / Mú Carvalho / Paulinho Tapajós). Na sequência, outras duas canções que dialogam com o legado do Clube da Esquina: Certas Canções (Milton Nascimento / Tunai), que dá continuidade à ideia da presença marcante da música na vida de cada um (“Certas canções que ouço / Cabem tão dentro de mim / Que perguntar carece / Como não fui eu que fiz”), e a belíssima balada pop de Lô e Márcio Borges, Quem Sabe Isso Quer Dizer Amor, com destaque para o inusitado arranjo para trompete de Tony Maia, criando uma ambientação totalmente original para a canção, em que as vozes femininas graves passearam com precisão. Um dos pontos mais altos do show.

karen malagoli

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O Brasilis e os músicos convidados protagonizaram show inesquecível. Sorte grande a de quem compareceu

O bloco de canções ligadas ao que se convencionou chamar de MPB e que perfazem a primeira parte do show teve sequência com as canções Na Volta que o Mundo Dá (Paulo César Pinheiro e Vicente Barreto), Toda Menina Baiana (Gilberto Gil), Corsário (João Bosco e Aldir Blanc) – emocionante interpretação de Deize Águena, com grande domínio da tensão melódica da canção, tanto nos dificílimos graves da primeira parte quanto nos agudos da segunda, cantada uma oitava acima – concluindo com a empolgante “salsa brasileira, meio Rio meio Havana”, Ai Ai Ai (Ivan Lins / Vitor Martins).

O ritmo latino de Ai Ai Ai dá espaço para um bloco intermediário em que são apresentadas três canções emblemáticas do cancioneiro mato-grossense: Pra Terra (Maurício Detoni), Chalana (Mario Zan e Arlindo Pinto) e Mercedita (Ramon Sixto Rios), canção argentina cujos ritmo e estrutura melódica foram plenamente incorporados à tradição musical da região. Neste momento, aqueles que ainda estavam apreciando o show do interior de seus carros, começaram a abrir as portas e ousar alguns passos e aplausos e, mais uma vez, criou-se uma atmosfera apropriada para todo um bloco de canções que animaram a segunda parte do show, em que o samba predominou.

Convidado a subir ao palco, Rodrigo Rocha deu início à canção Clareou (Rodrigo Leite e Serginho Meriti), sendo acompanhado, já na segunda parte, pelas cantoras do trio. A nova vertente do samba nacional foi ainda prestigiada com Tá Escrito (Xande de Pilares / Carlinhos Madureira / Gilson Bernini). Logo após, o samba cedeu espaço ao swing de Lenine, com Jack Soul Brasileiro – magistral interpretação de Juliane Grisólia, com divertido e empolgante “canto dialogado” entre os integrantes do trio na última parte da canção – assim como ao swing da mato-grossense Vanessa da Mata, em Não Me Deixe Só. O bloco terminou em ritmo de carnaval baiano, com três clássicos contemporâneos: Baianidade Nagô (Evandro Rodrigues), Meia Lua Inteira (Carlinhos Brown) e A Luz de Tieta (Caetano Veloso).

Informado por Deize Águena de que o show estava chegando ao fim, o público se preparou para ouvir as três canções mais tocadas pelo Trio Brasilis ao longo destes 15 anos de existência. Surpresa para lá de agradável, a primeira foi Samba de Uma Nota Só (Tom Jobim e Newton Mendonça), seguida de Canto de Ossanha e Berimbau, ambas de Vinícius de Moraes e Baden Powell. O show termina, portanto, com uma reverência ao universo da bossa nova e aos vários caminhos que ela abre para a música brasileira, via Tom Jobim e Baden Powell, e letristas inovadores como Mendonça e Vinícius. Em menos de duas horas, a plateia foi presenteada com uma variedade de ritmos e estilos musicais representativos da história da música brasileira, sem desconsiderar as tradições regionais e um aceno ao panorama mais amplo da música latino-americana, num programa idealizado e executado com grande qualidade e destreza musical e intensa carga poética.

Quero concluir minha resenha recordando a passagem de um depoimento de Vera Capilé sobre o Trio Brasilis. Nele, a cantautora diz que, numa festa, por acaso, ouviu o trio pela primeira vez e ficou impressionada pela sua musicalidade e pela beleza do repertório, o que a fez não querer sair mais de onde estava. Acabo de chegar em Cuiabá e assisto pela primeira vez a um show do Trio Brasilis, justamente o que celebra seus 15 anos de atividade. A sensação é a mesma. É um momento de suspensão e encantamento, do qual relutamos em sair. Porque o Brasilis nos faz perceber que a música vive e resiste e, assim, também nos faz viver e resistir quando tudo ao nosso redor parece nos dizer ‘não’. Que a música continue sendo a profissão de fé destes artistas por muitos anos mais.

karen malagoli

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No palco, o Trio e representantes de instituições envolvidas que possibilitaram uma apresentação memorável

Show: Trio Brasilis 15 anos

Músicos

Trio Brasilis: 
Deize Águena – voz
Juliane Grisólia – voz e percussão
Rúsivel de Jesus – voz e violão

Convidados:
Rodrigo Rocha – percussão
Tony Maia – sopro
Wender Couto – bateria

Equipe técnica
Enio Castilho – produção executiva
Tânia Rauber - assessoria de imprensa
Carlos Jeronimo- gravação de áudio
Cristiane Puertas - assessoria vocal
Ju Segovia - criação audiovisual
Karen Malagoli- fotografia
Karina Figueiredo - direção de iluminação
Natalia Andrade - criação publicitária
Raphaella Fares- assistência de palco
Wivianynn Pereira - assessoria contábil
Liliane Nascimento e Luanda Taiana - apoio

Repertório

1. Sapato Velho (Cláudio Nucci / Mú Carvalho / Paulinho Tapajós)
2. Certas Canções (Milton Nascimento / Tunai)
3. Quem Sabe Isso Quer Dizer Amor (Lô Borges / Márcio Borges)
4. Na Volta que o Mundo Dá (Paulo César Pinheiro / Vicente Barreto)
5. Toda Menina Baiana (Gilberto Gil)
6. Corsário (João Bosco / Aldir Blanc)
7. Ai Ai Ai (Ivan Lins / Vitor Martins)
8. Pra Terra (Maurício Detoni)
9. Chalana (Mario Zan / Arlindo Pinto)
10. Mercedita (Ramon Sixto Rios)
11. Clareou (Rodrigo Leite e Serginho Meriti)
12. Tá Escrito (Xande de Pilares / Carlinhos Madureira / Gilson Bernini)
13. Jack Soul Brasileiro (Lenine)
14. Não Me Deixe Só (Vanessa da Mata)
15. Baianidade Nagô (Evandro Rodrigues)
16. Meia Lua Inteira (Carlinhos Brown)
17. A Luz de Tieta (Caetano Veloso)
18. Samba de Uma Nota Só (Tom Jobim / Newton Mendonça)
19. Canto de Ossanha (Vinícius de Moraes / Baden Powell)
20. Berimbau (Vinícius de Moraes / Baden Powell)
Bis: Clareou (Rodrigo Leite e Serginho Meriti)

Apoio

Trigoria Bar e Restaurante
Onng
BPW- Associação de Mulheres de Negócio e Profissionais
Rede de Auto Posto Stock
Teatro do Cerrado Zulmira Canavarros
Assembleia Social

Realização

Lei Aldir Blanc em MT
Secretaria de Esporte e Cultura de MT
Secretaria Especial de Cultura
Ministério do Turismo

 

*Helvio Moraes é professor de literatura da Universidade do Estado de MT (Unemat, é 'cantautor'  e já lançou o álbum "Profano Absoluto". Escreveu esta resenha especialmente para o tyrannus e nossa torcida é para que continue colaborando com o site

 

 

 


Fonte: Tyrannus Melancholicus
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