Segunda, 09 de agosto de 2021, 17h00
LETRAS DELAS
Madeira de lei!

Luiz Renato Souza Pinto*

Marli Walker, estreia na prosa trazendo traços do berço em que ancora o baú de memórias, a ligação do sul ao norte que a provém de palavras para o sustento de sua lavra. Em Coração madeira, a estrutura sobre a qual se debruça a escrita é composta por três partes, anunciando a presença do pai, da mãe e da Filha do Meio. O romance tem a estrutura de uma trindade. A parte 1 - “Em nome do pai” – traz a marca da tradição religiosa que se encarna nas três vezes em que o sino dobra e amplifica os miúdos receios daquela moça. 

Na casa paterna, as ave-marias são incorporadas aos rituais cotidianos. O nascimento do filho, as variações do pó à lama e a ladainha da missa compõem o cenário. Os bancos separados na igreja: homens de um lado, mulheres de outro, exemplificam a hierarquia patriarcal. Contrariando usos e costumes, a avó materna senta-se ao lado do esposo no banco da igreja. O veludo das rosas que caracteriza sua voz, a cortina de voile branco para o moço bonito, as panelas de bicho de pé e mão – metáforas para os larva migrans - avançam os movimentos narrativos em movimentos de flashforward.

“Em nome da mãe” é a segunda parte.  A voz de veludo da avó; os acordes da gaitinha de boca do pai, as notas do piano da amiga pontuam o ritmo que condensa boa parte das ações que reverberam o crescimento paulatino da menina. Respira-se o universo da sexualidade que aflora aos poucos. Planta-se o terreno fértil da infância enquanto se aguarda a germinação da floresta. A autoridade paterna é hegemônica em boa parte da trama. 

Na parte 2 se consolida a imagem que transcende essa contingência, a da avó. Sua “voz de veludo mais doce, (...) sempre com seu imenso par de asas aberto sobre quem precisasse de socorro ou defesa em função de uma ou outra arte descoberta pelos pais”. (WALKER, 2020, p. 18). A metáfora do título se constrói ao longo do texto enquanto se enlaça o leitor com referências literárias e o calor úmido das matas. Há um gosto de floresta no romance.  

A Filha do Meio encarna as conquistas femininas ao longo de décadas. O diploma de curso superior, depois da separação e o crescimento profissional são etapas pelas quais vai efetuando a transição. A cabeça sempre voltada para os conselhos da avó. As baratas, a mãe, a casa paterna, o filho, a Filha do Meio, a avó, o veludo das rosas, o moço bonito, a terra distante, o coração da Filha do Meio, árvores mortas e árvores vivas. Dos quatorze capítulos, onze são iniciados por artigos definidos, somente os de número um, doze e treze não: Grandes chuvas, árvores mortas e árvores vivas.

A segunda parte da reza, digo, da narrativa (Em nome da mãe) é composta de dez capítulos, sempre com a entrada acerca do episódio anterior ligando a linha do tempo ao avesso, o que causa estranhamento no leitor; um efeito de andar para trás com a escrita. Mais uma vez a voz de veludo a soprar em seus ouvidos. E continuam os capítulos remetendo ao episódio anterior: coração e razão, a linha do tempo, Planalto Central, o universo amoroso, a capital do estado, ensinar e aprender, coração madeira e a metáfora original. A morte e suas visitações. Desta feita, a do pai.

A terceira e última parte é a mais curta. Aqui se realiza o enfeixamento dos episódios anteriores, em um capítulo sem numeração: De todos os episódios anteriores - como uma estrutura barroca na qual se acolhesse a semeadura da lavoura no instante final: o recolho, ou colheita. Foi preciso ir até a Alemanha para que a filha do meio recuperasse os fios de sua meada. Ir às raízes para se reconhecer o tronco; respirar a língua do coração em sua gênese enquanto, observando o carvalho centenário, se espelha no âmbito de seus galhos - o telefonema do filho.

A construção de um mundo paralelo em que a Filha do Meio e seu pai coexistam faz com que emerja de dentro do texto outra narrativa. Em As baratas, “alguma passagem da infância feliz vivida na casa paterna”. (WALKER, 2020, p. 16). Em A mãe, a protagonista se encontra “ao redor do fogão a lenha, ouvindo as histórias do pai”. (WALKER, 2020, p. 18). Em A casa paterna a lembrança da “Casa grande, sempre amanhecendo, a tradição era assim: filho mais novo obedecia ao mais velho”. (WALKER, 2020, p. 21). Aqui  ressurge a questão do controle.

A obra vai circundando o núcleo familiar e suas problemáticas. Em O filho, a metáfora do pé de galinha apresenta ao leitor um entroncamento. A memória recozinha nas “noites frias ao redor do fogão a lenha, no colo do pai, o pai cantava na língua do coração, tocava gaitinha de boca, a mãe e a avó entravam no do refrão. Os irmãos, as irmãs e a Filha do Meio faziam coro”. (WALKER, 2020, p. 28). A morte do pai sela seu papel de tronco, junto aos galhos e vendo algumas folhas mais velhas se despregando, ao sabor do vento. Esse outono que se transforma em “organismo vivo que mantém conexão até mesmo com o tronco decepado.”. (WALKER, 2020, p. 130). Aqui o interdito se anuncia. 

A trajetória de mulher que conquista os louros com o trabalho, mas que também sofre e em seu caminho de luz vai palmilhando o território de vitórias que, nem mesmo as turbulências, as tempestades e as grandes chuvas a impediram de seguir. A mensagem é de ruptura com as amarras patriarcais. As autoridades eclesiásticas, as referências universitárias, nenhuma outra voz falou mais alto que a firme presença do tronco paterno. Lá no alto, a ideia de firmamento que subverte a alta copa das árvores pela imagem cristã da vida eterna, também se ouve a voz de veludo da avó (morta) – sonoridade expandida pela repetição do fonema consonantal /v/ - velar, velado, ressoando o vento que sopra distante e traz aconchego, no embalo da cantiga. 

Pensar em Coração madeira como romance de memória justifica o elemento anafórico que percorre vinte e quatro dos vinte e cinco capítulos do livro: a referência aos episódios anteriores. O olhar para trás que a escrita sugere acompanha uma espécie de túnel do tempo em que o leitor viaja para o passado enquanto a narrativa projeta a protagonista para o futuro. Quando a palavra se estende para a primeira pessoa é que se condensa o universo lírico. Talvez por esses viés se torne consistente a aproximação de Coração Madeira à esfera lírica. 

Coração madeira nasce em época de desmatamento acelerado, de propagação de outras lavouras que vergastam o solo que divide o território entre ricos e pobres, que concentra poder e propriedade, com a benção de púlpitos e oratórios. De seu tronco decepado brotaram novos ramos, outros rumos se desenharam no quadrante a frente. A Filha do Meio, agora Coração madeira, que também foi mãe e depois avó, ouve ao longe aquela voz de veludo (em silêncio que as páginas do livro nem escutam) as certezas que palmilham suas conquistas. Madeira de lei!

 

lucas lemos

marli

Marli Walker nasceu em Santa Catarina, de onde saiu aos dezoito anos para a região amazônica de MT, onde viveu por mais de vinte anos. Atualmente reside em Cuiabá, onde escreve e leciona no Instituto Federal de Mato Grosso (IFMT). Já publicou os livros de poemas "Pó de serra" (2006/2017); "Águas de encantação" (2009), selecionado pelo edital da prefeitura de Sinop; "Apesar do amor" (2016), contemplado pelo edital do MEC para o PNLD/2018 e pela Prefeitura de São Paulo (2019), "Jardim de ossos", premiado em 2020 pelo edital da Biblioteca Estevão de Mendonça - MT e "Coração Madeira" (2020)

 

 

 

 

*Texto de Luiz Renato Souza Pinto, poeta, escritor, ator e professor. Colabora mensalmente com o tyrannus, através da coluna LETRAS DELAS, onde envereda por literaturas escritas por mulheres


Fonte: Tyrannus Melancholicus
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