VERSO
Alberto Pucheu


À Míngua*


Caminho há quinze horas pela cidade do Rio de Janeiro e não
sinto vontade de parar, apesar da fome
solapando as pernas e o pensamento.
Sou despejado de num feito inquilino com contrato expirado, sem
dinheiro para renová-lo. Meu desespero é pelo agora.
Não, não voltarei para o trabalho. Não serei como os outros. Não
serei como sou, eu que sou como qualquer um e como todos os
outros. Continuarei a caminhar
por quantas horas forem necessárias
até expirar o derradeiro resquício de incômodo, até secar a última
gota do medo,
até que o grito não venha do desajuste, mas
do inumano explícito em cada paisagem.
Vou por onde não preciso de portas.
Quinze horas caminharei, e depois mais quinze,
e, ainda, depois... Esquecido de mim
e de todos os outros.

 

*Reproduzido do site http://www.antoniomiranda.com.br/

pucheu

O carioca Alberto Pucheu nasceu em 1966. É poeta, ensaísta e professor de Teoria Literária da UFRJ, prestigiado e reconhecidamente premiado com suas poesias e seus ensaios. Tem publicado ensaios em diversos livros, nos principais periódicos acadêmicos brasileiros e em portais nacionais e internacionais de literatura, bem como resenhas e poemas nos mais importantes jornais do país e em sites específicos


Fonte: Tyrannus Melancholicus
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