Segunda, 06 de dezembro de 2021, 19h00
CRÔNICA
"Dordóio"

lorenzo

Os olhos e o olhar. Há diferenças entre eles. O olhar pode ser penetrante, enquanto os olhos têm lá a sua coloração. Lá na cara dos outros e aqui também. E é infinita a forma como podemos discorrer sobre o olhar, que tem na sua comissão de frente os olhos. Já na ala das baianas e na velha guarda, acumulam-se palavras como catarata, miopia, vista cansada e por aí vai. "Dordóio"... não. Esse não escolhe idade e gente velha até se esquece ou faz confusão se "dordóio" e terçol são sinônimos. Antigamente, curava-se "dordóio" com um colírio que contracenava bem com a coisa: "lavoio". E é assim que a gente vai se embrenhando pelo regionalismo nestas palavras. Mas só um pouco.

É que eu já ia me esquecendo de registrar que esquentar uma aliança no tecido da roupa e depois aplicá-la no olho com terçol, noutros tempos, era tiro e queda. Precisei até abrir parágrafo novo pra assuntar isso, e aproveito pra dizer também que negar coisas pra mulher grávida é tiro e queda pra pegar tersol. 

Tiro e queda duas vezes e de uma vezada só num único parágrafo. Se repetir palavras é palavrório de mau gosto, o que dizer da repetição de expressões. Bom, pelo menos, tô encurtando os parágrafos. Pois dizem que neste mundão interneteiro, longos parágrafos espantam leitores e leitoras. 

Agora já não sei mais se toco a coisa falando do olhar e dos olhos, ou parto para outro tema, novidadeiro destes tempos, tipo "noivinha do aristides". Sigo em frente considerando que tudo é uma questão de ponto de vista. E eu já cheguei a acreditar que, como temos dois olhos, devia de ser pontos de vista. Plural. Embora gente como Camões e Lampião, quero crer, exerciam o ponto de vista de maneira mais singular.

Retomo o tema inicial, porém, com um olhar oblíquo e dissimulado. É que meus olhos estão embaçados de alimentar minhas ideias com tanta baboseira que não consigo ignorar. Minha idade madura é mais dura do que eu pretendia. Ver para crer é o inacreditável que anda fatigando as retinas deste cidadão do mundo.

E parto agora para a maldição das frases feitas, surrupiadas de outras gentes. Vamos com o jornalista e escritor brasileiro Gilberto Dimenstein - “o nacionalismo é a prova de que a humanidade não dá certo”, e “Pensar globalmente, agir localmente”, frase que tem sua formulação atribuída ao sociólogo alemão Ulrich Beck. 

Uma lasca desse raciocínio também cabe ao regionalismo, que se apequena como bairrismo. Quem somos, de onde viemos e para onde vamos é uma pluralidade singular que merece respeito; e a inteligência necessária, para refletir nesse entorno, já que as complexidades são muitas. E eu devo respeitar quem se dispôs a ler minhas palavras e manter o coração aberto. 

Os olhos são a janela da alma. Adoro essa frase que apreendi não me lembro quando. Sempre me cabe repeti-la. E fecho minhas palavras com a imagem mais contundente em torno do olhar que vida já me apresentou: uma lâmina afiada cortando a delicada superfície do olho. 

Vejo, logo penso: o horizonte vai até onde a vista alcança e, mesmo que ele se afaste quando nos aproximamos, a utopia precisa ser mirada...    

buñuel

olho

Imagem do filme "Um Cão Andaluz" (1929), de Luis Buñuel


Fonte: Tyrannus Melancholicus
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