Segunda, 06 de dezembro de 2021, 19h00
DOCUMENTÁRIO/LANÇAMENTO
A relação do rock com Cuiabá

Redação*

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A história do rock em Cuiabá é marcada por muitas bandas e músicos, lugares importantes e diversas sonoridades que oscilam do clássico rock’n’roll ao extremo death metal. Uma característica comum aos diferentes gêneros musicais que compõe o cenário roqueiro cuiabano é a associação ao underground: um modo particular de ser-estar no mundo marcado pela autonomia criativa. 

Trata-se de uma história que em boa medida existe apenas na memória de músicos e entusiastas do rock autoral em Cuiabá. E se memória é tanto preservação quanto acumulação do passado no presente, o documentário "Ser Underground: A história do rock cuiabano" (2021, 74 min), dirigido por Joe Fagundes e i. bê. gomes, atualiza essa história ao costurar entrevistas com importantes personagens da cena roqueira a raras imagens de arquivos. 

Contemplado pela Lei Aldir Blanc (Edital nº 05/2020 – Secel-MT / MT Nascentes), o documentário reúne mais de 50 entrevistados entre músicos, produtores culturais e jornalistas para narrar o percurso do rock pela cidade. As gravações foram realizadas em janeiro e fevereiro, e a montagem das mais de 13 horas de entrevistas foi feita ao longo do ano de 2021. 

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Danilo Barero e Eder Uchôa Noleto, mais conhecido como Frog

Para além de um registro auto-elogioso, os dois diretores apresentam um recorte audiovisual que lança luz sobre um segmento da cultura urbana cuiabana que propositalmente se coloca às margens – mas que há tempos circula e reverbera pela cidade.

A emergência do rock em Cuiabá

A narrativa do documentário se inicia na década de 1960 com a Jacildo e Seus Rapazes, banda considerada precursora do rock’n’roll cuiabano. O primeiro baterista dela, Moracyr Isac da Anunciação (1937-2021), traz em seu relato uma Cuiabá distante – quando ainda eram ativos lugares como o Balneário, o Sayonara e o Clube Dom Bosco. É interessante notar como a cidade já se apresentava como uma antena ao captar uma expressão artística estrangeira como o rock’n’roll .

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Ebinho Cardoso

Porém, é na década de 1980 que o rock cuiabano ganha uma sonoridade mais agressiva e assume uma identidade underground. E pelos relatos dos entrevistados é possível afirmar que o rock cuiabano é underground tanto por uma escolha estética quanto por falta de opção: da dificuldade em se obter instrumentos e discos à falta de espaços para shows, a cena roqueira cuiabana foi construída à base de improvisos e muita criatividade. 

Kabbalah, Blokeio Metal, Caximir, Lynhas de Montagem e G.T.W. são algumas das bandas que ajudaram a moldar esta fase da cena roqueira cuiabana – com forte associação ao lema punk do it yourself (faça você mesmo). Este espírito inventivo se manteve nos anos 1990 à medida que bandas surgiam e, na mesma proporção, separavam-se. Era amplo o raio sonoro do rock cuiabano nesse período: do pop rock com traços locais da Pacu Atômico ao death metal da Extremunção, do punk rock da Joãozinho & Maria ao crossover da banda Dross. 

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Fabricio Roder, em fotografia de 1995

A partir dos anos 2000 surgem muitas bandas de heavy metal, como Gorempire, Necrosodommy, Hellzen, Malignant Excremental e tantas outras. E este gênero ganha força com a inauguração do Cavernas Bar, um lugar unânime entre os roqueiros da cidade e que ajudou a inserir Cuiabá na rota de shows underground nacionais e internacionais. Trata-se de um espaço agregador que reafirma a existência de uma cena musical que, apesar do real, resiste para além da memória dos músicos que a compõe.

Equipe de produção

O documentário Ser Underground: A história do rock cuiabano tem à frente o cineasta Joe Fagundes, que integrou diversas bandas no cenário roqueiro em Cuiabá e em 2019 lançou no melhor estilo do it yourself o documentário "Entre mortos e feridos, salvaram-se quase todos – G.T.W. 30 anos depois". Por conhecer e ter vivenciado boa parte do que é narrado no vídeo, Joe foi o grande responsável pela montagem da narrativa – além de ter atuado na direção e na produção do documentário.

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Fidel Fiori

O jornalista i. bê. gomes (pseudônimo de Iuri Barbosa Gomes) também fez parte de bandas e acompanhou a cena roqueira cuiabana a partir dos anos 2000 realizando registros fotográficos. Além disso, realizou coberturas e entrevistas enquanto atuou como repórter em veículos informativos em Cuiabá. Em 2018 ele defendeu uma tese pelo Programa de Pós-Graduação em Estudos de Cultura Contemporânea da UFMT (ECCO-UFMT), que é a base do roteiro do documentário. 

Além dos dois diretores, a equipe de produção é composta por Yuri Kopcak, responsável pelo som direto, Jomar Brittes, responsável pela identidade visual do filme e Protásio de Morais, diretor de fotografia – profissionais que já haviam trabalhado com Joe no documentário sobre a G.T.W. O fotógrafo tangaraense Willian Garcia completa a equipe e são deles os registros dos bastidores e de todo o processo de produção do vídeo. 

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Moracyr Isac da Anunciação, primeiro baterista da Jacildo e Seus Rapazes, falecido em setembro deste ano, um dos homenageados pelo documentário

Entrevistas e acervo de imagens 

Para a realização do documentário "Ser Underground: A história do rock cuiabano" foram realizadas 56 entrevistas – algumas presenciais e outras de modo on-line. Apesar de alguns entrevistados aparecerem sem máscara no vídeo, ressalta-se que os protocolos sanitários exigidos diante da pandemia de Covid-19 (como o uso de máscara, álcool gel e o distanciamento) foram devidamente respeitados. Para evitar aglomeração nas locações das entrevistas foi montado um cronograma com horário marcado, o que garantiu a segurança e integridade tanto da equipe quanto dos convidados.

Além das entrevistas realizadas no início do ano, utilizou-se um raro acervo imagético “perdido” em formatos analógicos – tanto em foto quanto em vídeo. Fez-se necessária a digitalização desse material, o que resulta em mais uma forma de conservação de parte da memória do rock cuiabano. Os registros são poucos e raros, mas muito significativos para a construção dessa narrativa sonora.

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Rosi Pando, vocalista e musa do rock cuiabano nos anos 80 e 90

Homenagens

Além de trazer à tona a história do rock em Cuiabá, o documentário faz uma homenagem a Camilo Pio Saes, músico multi-instrumentista que ajudou a fundar a banda de death metal Gorempire,  um militante da cultura underground na cidade. Ele também seria entrevistado, mas infelizmente faleceu durante o processo de produção do vídeo, em janeiro. 

O documentário também é uma homenagem a Moracyr Isac da Anunciação, primeiro baterista da Jacildo e Seus Rapazes e que infelizmente faleceu em setembro deste ano.

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Helcio Luis Santo... codinome Corvo

 

Lançamento e parcerias

O lançamento do documentário ao público será realizado no Cinema do Sesc Arsenal, lugar cativo da cultura mato-grossense. A sessão será às 19h do dia 11 de dezembro, com entrada gratuita.

Antes da exibição será ofertada uma oficina cujo tema é a produção audiovisual com recursos alternativos – nos moldes underground. A atividade será dividida em duas etapas no dia 11 de dezembro: uma parte mais teórica no período matutino, e um segundo momento mais prático – em parceria com o workshop Apreciação, percepção, análise musical em Heavy Metal , proposto pelo músico e professor Roberto Viana.

As inscrições são gratuitas e serão ofertadas 15 vagas para um público-alvo iniciante ou entusiastas do audiovisual. 

Para se inscrever é necessário preencher o formulário disponível neste endereço: https://forms.gle/HorVZS7ktvCur8r67

OBSERVAÇÃO: a maior parte das imagens reproduzidas nesta matéria foi feita pelo fotógrafo Willian Garcia. 

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Ricardo Sardinha

SERVIÇO

O QUE: Lançamento do documentário "Ser Underground: A história do rock cuiabano"
QUANDO: dia 11, às 19h
ONDE: Cinema do Sesc Arsenal
QUANTO: Entrada gratuita

 


Fonte: Tyrannus Melancholicus
Visite o website: https://www.tyrannusmelancholicus.com.br/