Segunda, 17 de janeiro de 2022, 20h11
ENTREVISTA
Com Pedro Casaldáliga

Autor não informado*

Em dezembro passado me chegou pelo correio uma obra interessante, que tenho folheado nos últimos dias: "As utopias e resistências de Pedro Casaldáliga - escritos escolhidos", do amigo escritor e estudioso das letras, Edson Flávio dos Santos. Um nobre presente de Natal, eu diria. Autografado, fica chic dizer isso. 

Casaldáliga (1928-2020) já foi citado algumas vezes no Tyrannus, é sempre pauta boa. Está também entre os mais de mil e oitocentos poetas que venho publicando, na seção poesia, onde mui raramente repito os autores. Mas uma vontade minha antiga era destacar essa grande figura, alma gigantesca, com uma nova publicação em torno do saudoso bispo.  

E nesta edição, mato a minha vontade. Entre tantos escritos em prosa e verso que estão no livro, publicado pela Carlini & Caniato (e já esgotado), pincei uma entrevista breve que Casaldáliga deu há muitos anos e que também fez parte de outro livro, também esgotado: "Águas do Tempo", publicado em 1989, com foco na poesia do saudoso bispo, organizada pela extinta Fundação Cultural de MT e pela Editora Amazônida.

As perguntas são diretas e as respostas são cirúrgicas. Refletem a simplicidade de uma pessoa generosa que tinha - e ainda tem - muito a compartilhar, e que expressa palavras capazes de tocar o coração de qualquer um. Numa conversação que não tem prazo de validade a ser vencido.

Reeditar os dois livros, portanto, é a minha dica para editores, gestores, produtores culturais que atuam na literatura.  

A entrevista

Quando começou a escrever?
Novinho ainda, no seminário, com 11, 13, 15 anos. A formação clássica nas línguas latina e grega e o acurado exercício do "castelhano" nacional; nos estudos eclesdiásticos, despertaram minha vocação poética, literária.

O que o atraiu para a poesia? Foi influenciado por algum escritor?
Os grandes poetas castelhanos, clássicos e modernos, de João da Cruz e Lopes de Vega até Machado e Lorca e os poetas catalães, como Verdaguer ou Maragall, cantados inclusive, influenciaram meu estilo, sem dúvida. Depois, outras leituras e o crescimento da própria identidade possibilitam o modo pessoal, água de muitas fontes, riacho próprio enfim. Entretanto sempre será verdade o dizer dos antigos: "O poema nasce". A sensibilidade, a vivacidade de expressão, a vibração interior que necessita se tornar palavra, estão dentro da gente. Todos somos poetas, numa certa medida.

O que representa a poesia para você?
A poesia é a palavra emocionada. Por ela a gente se diz e diz o próximo, o Universo, o Próximo, o Povo, a Morte, a Vida, Deus, calidamente. A poesia é a resposta sensibilizada a tudo e a todos num encontro, que pulsa a alma e compromete as opções. Como cristão, como sacerdote, a poesia é também para mim a evangelização. Canto a palavra de Deus, o Verbo feito carne e história humanas, Boa Notícia para os Pobres, pregão eficaz de Libertação. "Cantar bem - Dizia Santo Agostinho - é orar duas vezes". Pregar em poesia pode ser uma disciplina, pregação, quem sabe...

Qual o seu método de trabalho?
Meu trabalho poético, concretamente, é "sobretudo la marcha", como a gente diz em castelhano: vivendo, tocado por um momento forte, emocionado por um encontro, a partir de uma leitura, evocando, sonhando o amanhã, orando. Muitos poemas meus nasceram viajando por essas estradas e rios e sertão: a cavalo, de "voadeira", de ônibus.

O que pode a Literatura?
Tudo o que pode a palavra humana, potenciada pela beleza; e a palavra, depois do sangue, é sempre "poder" maior. Somos palavra, dizem os Guarani. Herdeiros da Palavra criadora.  


*OBSERVAÇÃO: no espaço onde registramos a autoria do texto, a intenção era a de registrar o autor da entrevista, porém, no primeiro livro, não constava o autor da entrevista e os editores do segundo livro também não conseguiram descobrir a pessoa que entrevistou Casaldáliga. 

arquivo prelazia

casaldáliga

Pedro Casaldáliga nasceu Pere Casaldàliga i Pla em Balsareny, província de Barcelona, em 16 de fevereiro de 1928; e faleceu em Batatais (SP), em 8 de agosto de 2020. Foi um bispo católico espanhol radicado no Brasil desde 1968. Foi o primeiro bispo da Prelazia de São Félix (MT), sendo conhecido internacionalmente por defender os direitos humanos, especialmente dos povos indígenas e marginalizados, e também por suas posições políticas e religiosas a favor dos mais pobres (informações da Wikipédia e fotografia do arquivo da Prelazia de São Félix do Araguaia-MT))


Fonte: Tyrannus Melancholicus
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