Segunda, 24 de janeiro de 2022, 18h48
VERSO
Al Berto


dizem que a paixão o conheceu

 

dizem que a paixão o conheceu
mas hoje vive escondido nuns óculos escuros
senta-se no estremecer da noite enumera
o que lhe sobejou do adolescente rosto
turvo pela ligeira náusea da velhice

conhece a solidão de quem permanece acordado
quase sempre estendido ao lado do sono
pressente o suave esvoaçar da idade
ergue-se para o espelho
que lhe devolve um sorriso tamanho do medo

dizem que vive na transparência do sonho
à beira-mar envelheceu vagarosamente
sem que nenhuma ternura nenhuma alegria
nenhum ofício cantante
o tenha convencido a permanecer entre os vivos

 

*Poema reproduzido do site https://www.escritas.org/

rtp

al berto

O português Alberto Raposo Pidwell Tavares (1948 - 1997), foi um poeta, pintor, editor e animador cultural e chegou também a escreveu para teatro. Era mais conhecido como Al Berto. Um nome indispensável na poesia portuguesa contemporânea. Chegou a ser rotulado como poeta maldito, mas, ao que tudo indica, isso já passou. Deixou vasta obra, considerando a sua partida precoce e, ainda, ficaram textos incompletos para uma ópera, para um livro de fotografia sobre Portugal e uma falsa autobiografia, como o próprio autor a intitulava. Em 1988 recebe o Prémio Pen Club de Poesia pela obra "O Medo"

 

 


Fonte: Tyrannus Melancholicus
Visite o website: https://www.tyrannusmelancholicus.com.br/