Segunda, 14 de fevereiro de 2022, 18h00
VERSO
Zeh Gustavo


RE-DOMA*

 

da sombra de seu
trânsito o homem
rude aponta sua arma
ou seu celular
ou sua própria cabeça sem alça
para a arte – e ele não a vê
mas a acossa – chispa!
o homem rude grita para a arte
e depois se vira para a beira da sua cidade
que queima e o homem rude se reflete no esgoto 
a céu aberto que é sua compressão de mundo, muro
o homem rude então se re-
parte em outros homens rudes
bravos e pequenos
(nada pode ser menor que homens rudes acasalados em fúria)
e esses homens rudes bravos e pequenos
ganem suas dores médias
(eles sofrem demais embora não digam)
e esses homens rudes de bolso 
espantados com o próprio re-
flexo-parte no lodo
assustados e em fúria
se enfiam narcisicamente no ledo engodo
e em conluio enfim se lambem
se matam
se amam


*Poema do livro "Contrarresiliente" (Editora Viés - 2019)

rozana lopes

zeh

Zeh Gustavo é músico, escritor e revisor carioca, morador de Cuiabá (MT). Mexe com poesia, canto, letra, conto. Oriundo, na música, do vasto mundo do samba, em que atua como cantador em grupos como o Terreiro de Breque, na literatura Zeh Gustavo publicou, entre outros, os livros "Contrarresiliente" (Viés, 2019) e "Eu algum na multidão de motocicletas verdes agonizantes" (Viés, 2018), além de participar de coletâneas como "Porremas" (Mórula, 2018) e "O meu lugar" (Mórula, 2015). Em 2021 organizou, junto com Rafael Maieiro, a coletânea poética "Jumento com Faixa: deboches e antiodes ao fascismo", e produziu o álbum musical da cantora Kell Santos, intitulado "Raiz e folha: o cancioneiro de Zeh Gustavo", elaborado inteiramente com composições de sua autoria e participação vocal de Zeh em duas faixas

 


Fonte: Tyrannus Melancholicus
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