Segunda, 14 de fevereiro de 2022, 18h00
PROSA
A dançarina e o passo para trás*

Protásio de Morais

Era 30 de julho do ano 2000. Chico Gil tinha três shows marcados naquele domingo, em cidades diferentes. Começaria no município de Jangada, depois seguiria para Rosário Oeste e encerraria a sequência em Nobres.

Para que fosse possível cumprir a agenda, o combinado era estar na estrada com suas dançarinas Vivian e Daiana, e seus parceiros Nildo e Nando antes das quatro da tarde. Já que Chico Gil pretendia ainda, como de costume, participar de alguns programas de rádio.

Mas já passava muito da hora combinada e nem sinal de Chico Gil aparecer. Era noite quando ele deu as caras. “Quando ele chegou em casa já era para estarmos subindo ao palco do segundo show, em Rosário Oeste. Meu irmão tinha me falado que encontrou com Francisco, bebendo e cantando com os amigos à tarde, no Jucão Lanches, no bairro Cristo Rei, em Várzea Grande”, lembra Daiana. 

Com seu Monza, Chico Gil encostou em frente à casa de Daiana e buzinou com certo nervosismo. Sem desligar o motor, ele acelerava o carro com curtas arrancadas, deixando o clima ainda mais tenso, o que demonstrava sua vontade de chegar logo ao destino. “Ele estava com muita pressa”, recorda.

– Pode desfazer a mala, você não vai – disse dona Janete à filha.

– Ah, eu vou sim – desafiou Daiana e saiu apressada com uma pequena mala na mão. Sua mãe foi atrás.

Daiana se aproximou do carro e observou seus parceiros pela janela. Vivian estava no banco do passageiro com uma sacola grande encaixada entre as pernas, Nildo e Nando no banco de trás. Tinha ainda um pequeno espaço na janela, reservado à jovem dançarina.

– Francisco, minha mãe não vai deixar eu ir – disse Daiana com os olhos cheios.

– Mas por que, Daiana?

– Já está tarde, ela não quer que eu viaje à noite. Você demorou muito a chegar.

– Mas você precisa ir, do contrário Vivian vai ter que dançar a noite toda sozinha. Vamos logo,  já estamos atrasados, vamos direto para Rosário Oeste, o show em Jangada já era. “Fiquei entre a cruz e a espada. Sem pensar muito, dei a volta rapidinho e fui entrando quando minha mãe grudou no meu braço e me arrancou à força de dentro do carro.”

– Já falei que você não vai, Daiana Emília.

– Mas, mãe, eu preciso ir, senão a Vivian vai dançar sozinha, não posso fazer isso com ela.

– Então fique também, Vivian. Não vá, fique aqui – disse dona Janete enquanto segurava com firmeza o braço de Daiana. 

“Minha mãe falava sem parar e Francisco parecia não ouvir nada, sempre com o olhar distante. Enquanto ela falava mais que o homem da cobra, Francisco ficou quieto, com as mãos no volante e o motor ligado”, recorda.

– Chico, Daiana não vai mesmo, já decidi. Pode seguir seu caminho. Tá na sua cara que você não tá nada bem pra dirigir.

– Não se preocupe, dona Janete, amanhã, antes do almoço, estaremos de volta – insistiu Chico Gil, desviando o olhar.

– É, Francisco, eu não vou mesmo – disse Daiana, mudando de ideia.

“Eu já tinha desobedecido minha mãe outras vezes, mas alguma coisa fez com que eu desistisse de entrar no carro. NuNunca falhei com Francisco, desde que passei a dançar nos shows dele, nunca faltei a nenhum, com exceção daquela noite. Em toda minha carreira como dançaria, aquele foi meu passo mais importante, um pequeno passo para trás que salvou a minha vida.”

– Então você não vai mesmo, né? – perguntou Chico Gil com olhar furioso.

– Desculpe, mas não vou, Francisco. Vivian, desça aqui, fique comigo, você vai dançar sozinha? Não vale a pena.

– Não posso fazer isso com ele, Dai. Preciso ir.

– Então desça aqui e me dê um abraço.

Vivian, que estava com uma grande sacola plástica acomodada entre as pernas, saiu com certa dificuldade e deu um abraço silencioso em sua amiga.

– Que sacola é essa?

– São os figurinos novos da turnê do Paraná. Você vai adorar.

– Então deixe ao menos a sacola aqui, para você ir mais confortável.

– Não precisa, amiga – disse Vivian, ao embarcar novamente no carro.

Nildo, com o braço para fora do automóvel, ainda teve tempo para segurar a mão de Daiana com ternura, antes de Chico Gil sair em disparada, cantando pneu, enraivecido. “Foi a última vez que os vi”.

Poucos minutos depois, rumo a Rosário Oeste, o Monza que Chico Gil dirigia chocou-se violentamente contra uma carreta Scania que transportava toras de madeira. O cantor morreu no local aos 43 anos, na BR 163, no km 20 da rodovia, no trecho que liga Cuiabá a Jangada.

Nildo, Nando e Vivian, que estava grávida de três meses de Chico Gil, também morreram. Na pista, parte dos troncos de madeira se misturavam aos novos figurinos que jamais viriam a ser usados. 

 

*Crônica reproduzida do livro "Sua majestade - Chico Gil" (Carlini e Caniato), disponível gratuitamente na ambiência virtual através do link https://chicogil.com.br/

protásio

Protásio de Morais começou a virar cuiabano quando passou a sentir na pele cotidianamente o calor que faz nesta cidade. Nasceu em terras amazônicas. Em Cuiabá formou-se em jornalismo pela UFMT, onde também fez mestrado em Estudos de Cultura Contemporânea. Como jornalista, desde 2005, vem atuando nas funções de repórter, fotógrafo, editor, documentarista e assessor de imprensas. Essa labuta diária, quase sempre, envolvendo o setor cultural, mais as habilidades no trato das palavras, naturalmente haveriam de inserí-lo na literatura. E eis que acaba de estrear com o livro de crônicas "Sua majestade - Chico Gil" (Carlini e Caniato), onde discorre de forma simples e sensível sobre a trajetória do artista poconeano Chico Gil (1957 - 2000). Bem vindo seja o Protásio, também conhecido como Protinha

 

 


Fonte: Tyrannus Melancholicus
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