Segunda, 28 de fevereiro de 2022, 17h20
ROMANCE (trecho inicial)
A Bagaceira*

José Américo de Almeida

Os salvados

Findo o almoço — podiam ser 9 horas — Dagoberto Marçau correu à janela, que é uma forma de fugir de casa, sem sair fora de portas, como se o movess e uma grande curiosidade. Mas, debruçado, apoiou o queixo na mão soerguida e entrefechou os olhos, num alheamento de enfado ou displicência.

Vivia ele, desse jeito, entre trabalheiras e ócios, como o homemmáquina destas terras que ou se agita resistentemente ou, quando pára, pára mesmo , como um motor parado.

Como que cobrar a medo ao vazio interior. Nã o há deserto maior que uma cas a deserta.

Entrava afobado, comia, ou, antes, engolia, de cabeça descaída, o repasto invariável e ou saía de golpe ou ficava a espiar para fora.

A presença do filho recém-chegado, em férias, não lhe modificava essa impressão. Em vez de confortar-lhe o abandono, agravava-o, mais e mais, como uma sombra intrusa.

Lúcio voltou da cachoeira com a toalha enrolada na cabeça, como um turbante.

Levantou o braço num gesto de quem mais parecia dar do que pedir a bênção. E foi, por sua vez , sentar-se à mesa.

Não se defrontavam, sequer, ness e ponto de comunhão familiar, onde as alma s se misturam numa intimidade aperitiva. Forravam-se, assim, ao constrangimento dos encontros calados ou das conversas contrafeitas e escassas.

A casa-grande, situada numa colina, sobranceava o caminho apertado, no trecho fronteiro, entre o cercado e o açude .

Num repentino desenfado, Dagoberto estirou o olhar, por cima das mangueiras mães s enfileiradas ladeira abaixo, para a estrada revolta.

Parecia a poeira levantada, a sujeira do chão num pé-de-vento. 

Era o êxodo da seca de 1898. Uma ressurreição de cemitérios antigos — esqueletos redivivos, com o aspecto terroso e o fedor das covas podres.

Os fantasmas estropiados como que iam dançando, de tão trôpegos e trêmulos, num passo arrastado de quem leva as pernas, em vez de ser levado por elas.

Andavam devagar, olhando para trás, como quem quer voltar. Não tinham pressa em chegar, porque não sabiam aonde iam. Expulsos do seu paraíso por espadas de fogo, iam, ao acaso, em descaminhos, no arrastão dos maus fados.

Fugiam do sol e o sol guiava-os nesse forçado nomadismo.

Adelgaçados na magreira cômica, cresciam, como se o vento os levantasse. E os braços afinados desciam-lhes aos joelhos, de mãos abanando.

Vinham escoteiros. Menos os hidrópicos — doentes da alimentação tóxica — com os fardos das barrigas alarmantes.

Não tinham sexo, nem idade, nem condição nenhuma . Eram os retirantes. Nada mais.

Meninotas, com a s pregas da súbita velhice, careteavam, torcendo as carinhas decrépitas de ex-voto. Os vaqueiros másculos, como titãs alquebrados, em petição de miséria. Pequenos fazendeiros, no arremesso igualitário, baralhavam-se ness e anônimo aniquilamento.

Mais mortos do que vivos. Vivos, vivíssimos só no olhar. Pupilas do sol da seca. Un s olhos espasmódicos de pânico, assombrados de si próprios. Agônica concentração de vitalidade faiscante.

Fariscavam o cheiro enjoativo do melado que lhes exacerbava os estômagos jejunos. E, em vez de comerem, eram comidos pela própria fome numa autofagia erosiva.

Lúcio almoçava com o sentido no s retirantes. Escondia côdea snos bolsos par a distribuir com eles, como quem lança migalhas a aves de arribação. A cabroeira escarninha metia-os à bulha:

— Vem tirar a barriga da miséria...

Párias da bagaceira, vítimas de uma emperrada organização do trabalho e de uma dependência que os desumanizava , eram os mais insensíveis ao martírio das retiradas.

A colisão dos meios pronunciava-se no contato da s migrações periódicas. Os sertanejos eram malvistos nos brejos. E o nome de brejeiro cruelmente pejorativo.

Lúcio responsabilizava a fisiografia paraibana por esses choques rivais. A cada zona correspondiam tipos e costumes marcados.

Essa diversidade criava grupos sociais que acarretavam os conflitos de sentimentos.

Estrugia a trova repulsiva:

Eu não vou na sua casa ,
Você nã o venha na minha,
Porque tem a boc a grande ,
Vem come r minha farinha...

Homens do sertão, obcecados na mentalidade das reações cruentas, não convocavam as derradeiras energias num arranque selvagem.

A história das secas era uma história de passividades. Limitavam-se a fitar os olhos terríveis nos seus ofensores. Outros ronronavam. como se estivessem engolindo golfadas de ódio.

E nas terras copiosas, que lhes denegavam as promessas vistoriadas, goravam seus sonhos de redenção.

Dagoberto olhava por olhar, indiferente a essa tragédia viva.

A seca representava a valorização da safra. Os senhores de engenho, de uma avidez vã, refaziam-se da depreciação dos tempos normais à custa da desgraça periódica.

O feitor alvitrava a admissão dos retirantes:

— Paga-se pouco mais ou nada...

Mas Dagoberto escarmentava a convergência molesta. Desafogava a fazenda da superpopulação imprestável, consignada à caridade pública.

À vista do bueiro fumegante que sujava o céu estivo, a matula espetral detinha-se esperançosa. E ficava a espiar a casa do engenho como uma grande essa armada no negrume do teto velho.

Alguns faziam menção de subir. Mas logo desandavam, aos tombos, na mobilidade incerta.

De quando em quando, um magote vingava o socalco. Chegavam mastigando em seco, para enganar a fome, nas mais grotescas atitudes da miséria.

Dobravam-se os joelhos, não como pedinchões. Genufletiam moídos de fadiga.

Não se carpiam, como se estivessem realizando um destino irremediável. Nem, sequer, lavavam com lágrimas as caras poentas.

Escorraçados, retrocediam, arquejantes, sem uma queixa.

E, desengonçando-se, de déu em déu, numa marcha esquecida, o rebotalho errante ia atulhar as feiras, malignar as cidades.

Dagoberto despercebia-se do desfile macabro. A seca infundia-lhe um sentimento contrastante.

   

*Reproduzido do site https//edisciplinas.usp.br , sem atualizações ortográficas

josé américo

José Américo de Almeida (1887-1980) nasceu no município de Areia (PB), oriundo de uma família com influência na política da região. Foi romancista, ensaísta, poeta, cronista, político, advogado, professor universitário, folclorista e sociólogo brasileiro. Foi foi ministro do governo de Vargas e governador da Paraíba. Sua trajetória política é controversa, mas, na literatura, foi nome destacado do modernismo. Seu romance "A Bagaceira" (1928) é considerado o marco inicial do romance regionalista do modernismo brasileiro

 


Fonte: Tyrannus Melancholicus
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