Segunda, 07 de março de 2022, 17h14
LETRAS DELAS
Força centrípeta

Luiz Renato Souza Pinto*

A periferia tem seu próprio centro. E que grita, imperiosamente, com todas as palavras. Em São Paulo Sérgio Vaz, Ferréz e Lilia Guerra, dentre muitos e outros mais, já sabem disso. De Lilia li primeiro seu romance Rua do Larguinho, logradouro que enfeixa narrativas potentes e dicotomizadas da pauliceia em permanente desvairio. Neste centenário de uma semana que abalou a elite da cultura paulistana, talvez tenha chegado a hora de um evento sísmico mais forte, e que desde a (nada remota) periferia, ao invés do Teatro Municipal, encravado na região central da cidade mais populosa da América latina. 

Lilia Guerra apareceu em nível nacional com seu Perifobia, coletânea de contos que se entrecortam como os fios de internet fixados pelos postes, a água que escorre pelas vielas e pelos guetos, mas também como o sentimento de pertencimento à comunidade em qualquer um desses grupamentos populares que vão se formando com o tempo. E é desse núcleo que brotam as histórias de Lilia. Sua memória é ativada por imagens que vão impregnando as narrativas, como aquela em que “quando a Kombi adoecia, ficávamos todos sem pão, rezando fervorosamente por seu breve restabelecimento”. (p. 7).

Costumo dizer que ninguém vê o que sempre foi seu, talvez pela ideia de que não valorizemos de maneira adequada nossas conquistas, naturalizadas com o passar do tempo. No conto “Rascunho de Amaro” pareço enxergar um pouco disso. Enquanto vou me acordando para mais um dia e me apego às letras para falar da escrita de Lilia, relembro as anotações de onde salta um fragmento: “Coei o café e tomei um gole. Arrisquei uma olhada no espelho, desfiando o velho receio de encarar a imagem do outro lado. Me achei bonita. Era só um pedaço de espelho, um caco que mal refletia o rosto inteiro”. (p. 16). Vou passar meu café com essa imagem. E do caco do espelho vejo apenas uma face que não me representa totalmente. 

No Rio de Janeiro, o assassinato de mais uma pessoa negra soa como fosse o último. Mais um imigrante trabalhando em regime de exploração de mão-de-obra, patrocinada pela falta de legislação que garanta mínimos direitos e condições para qualquer um. O grau de melanina na pele, quando vai parar de ser notícia nas páginas policiais? Como se a cor da pele fosse determinante de qualquer outra ação (ou reação) humana e a pessoa preta valesse (de verdade) menos no processo de sociabilidade a que nos orgulhamos tanto atribuir o nome de civilidade? “Só não disse que tinha achado teste de gravidez no lixo do quarto da Paulinha, nem que o Mauricinho frequentava as bocas de fumo da favela”. (p. 25). 

Perifobia, como Rua do Larguinho foram publicados pela Patuá, editora de São Paulo que publica autores conhecidos e desconhecidos não só de São Paulo, mas de todo o Brasil. Assim como patuá, “Talismã” - também tem o caráter de amuleto. E nesse conto, elementos aparentemente disfóricos ao longo do livro cumprem um papel integrador. Falo do broche, dos jabutis (que têm nomes de artistas da música popular brasileira) e do tal Bigode, brutalmente assassinado (o que não faz do morto uma pessoa digna). A morte parece nos igualar a todos. É o momento em que no enlace do silêncio as palavras parecem perder sua capacidade de significação. E no “Traslado da Rosa” isso fica bem claro. “Deve haver uma linha pra mim no seu resumo”. (p. 155). Resumo, resenha, qualquer tipo de babado é ressignificado pela narrativa contemporânea. 

Lilia se prepara para relançar o primeiro livro. A reescrita é um trabalho árduo, pois possibilita (por um lado) refazer o percurso, corrigir itinerários, reviver alguma dor passada. Escrita não é apenas concurso, prêmio, venda de livros, noite de autógrafos. Se há certo “glamour”, penso que vale mais pelo orgulho de novas conquistas do que pelo que os outros vão falar. Lilia está nos observando, a cada um de seus leitores novos, que vão se tornando cativos. Ela, como também seu séquito de narradoras, cheias de histórias para nos contar, parece dizer: “Eu sei bem disso, mas por enquanto, ainda tenho receio de abrir mais do que uma fresta da janela”. (p. 249).

Disse a Lilia em uma reunião de leitores que discutiam sua obra, recentemente, que gosto de conhecer a cidade pelas ruas e logradouros que são citados. E o faço também em minhas incursões pela escrita. Estou com vontade de pegar um ônibus na Vila Mariana e ir até a Cidade Tiradentes. E voltar, pelo mesmo caminho. E observar tudo o que acontece ao redor. E levarei as imagens do itinerário que li em “Vó”, lembrando-se das minhas duas: Amália e Cotinha, como se o caminho me levasse a elas: “descíamos da Lins até a Jafet, correndo como quem rouba. Ainda assim, eu me divertia muito durante o trajeto. Contava carros, cumprimentava os cachorros nos quintais, admirava os outdoors...e quando chegávamos perto da igreja de Santa Cândida, eu disparava e me escondia”. (p. 297).

 

REFERÊNCIAS

GUERRA, Lilia. Perifobia. São Paulo: Patuá, 2018. 

 

*Luiz Renato Souza Pinto, poeta, escritor, ator e professor. Colabora mensalmente com o tyrannus, através da coluna LETRAS DELAS, onde envereda por literaturas escritas por mulheres

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lilia guerra

Lilia Guerra é paulistana, nascida em 1976. Além de escritora, é servidora pública municipal e atua na área da saúde. Escreve uma prosa que tem muito a ver com a realidade. Seus textos estão presentes em algumas coletâneas como "Contos & causos do Pinheirão" e "Taras, Tarô e Outros Vícios", com os coletivos Armário do Mário e Palavraria. Em 2014 lançou o romance "Amor avenida" ("Editora Oitava Rima) e em 2018 o livro de contos "Perifobia" (Editora Patuá), que foi finalista do Prêmio Rio de Literatura 2019; e é objeto da resenha de Luiz Renato na sua coluna Letras Delas, do mês de março de 2022. Em 2021, também pela Patuá, Lilia lançou o romance "Rua do Larguinho"

 


Fonte: Tyrannus Melancholicus
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