Sexta, 08 de abril de 2022, 16h41
POESIA
Cuiabanália

Ronaldo Castro

CUIABANÁLIA: 

Ah! cuiabanália . . .

Cidade intoxicada do bagaço
tecnetrônico
                      estereofônico
                               biônico
                         supersônico
                               agônico

                            ATÔMICO

Onde o viver canônico
à sombra cheirosa dos quintais em flor?
                         narcotizou-se o amor?

Ah! cuiabanália . . .

Agora, espigões, néon,
excesso de decibéis,
jeans, gatonas trepadas
no lombo rouco das motos
superlotando os motéis.
Só há rock, drive-in,
lanchonete, pizzaria
e o terror dos quartéis,
Onde a boa putaria?

            (O bom era o Beco do Candieiro
               a desembocar no Bar Colorido,
         com o beijo disputado na valentia)

Ah! cuiabanália...

Pobre não mora, formiga
nas favelas do BNH.
Rico vira executivo
e coça no CPA.

Onde a Cuiabá telúrica
parindo a raça viril
emprenhada por sutil?

Ah! Cuiabá canalha
- c u i a b a n á l i a- 
cortesã das multinacionais
com seu arsenal eletrônico
                           agônico
                   estereofônico
                            biônico
                     supersônico

                         ATÔMICO

 Ah! cuiabanália . . .

Onde a Cuiabá pudenda
das igrejas, candomblés
e dos pios cabarés?
Já não há virgens postiças
nas escolas enfermiças.
A boemia e seus vícios,
seus bêbados vitalícios.
Prostitutas sacrossantas
pelas ruas não há tantas.
Só há tóxico e frescura
poluindo a noite pura.

Ah! cuiabanália!
Êta cidade canalha!

            Cuiabá metálica
                     neurótica
                        caótica
                        virótica
                    semi-ótica
              estroboscópica

                 Cuiabá feia e fétida
                             esfingética
                              hermética
                             cibernética
                     Cuiabá caquética

Ah! cuiabanália...

Onde a Cuiabá erudita
            doce e mansa
              culta e santa
       Cuiabá romântica
                  semântica
  Dos artistas e poetas?
 Onde a barroca matriz
  O coreto e o chafariz?

Ah! cuiabanália . . .

Cuiabá morreu e
vou para San Sebastian
- fronteira do México com o Nepal -
Que tenho porre marcado
com Rimbaud, Chopin, Van Gogh
e São Francisco de Assis
(Cuiabá não é mais feliz)

CUIABANÁLIA CANALHA

*Poema reproduzido do livro "Cuiabanália", 2ª edição (Carlini & Caniato - 2018)

acervo familiar

ronaldo

"Ah! cuiabanália... / Pobre não mora, formiga / nas favelas do BNH. / Rico vira executivo / e coça no CPA." Um poema tão belo quanto forte, de saudoso cuiabano evocando as transformações da sua cidade natal, com uma estrondosa criticidade. Apesar de escrito no final do século passado, os versos tendem a perdurar eternamente pela sua qualidade e pelo fiel registro de seu tempo. Vem a calhar nesta edição que celebra os 303 anos de Cuiabá

 


Fonte: Tyrannus Melancholicus
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