Terça, 02 de agosto de 2022, 21h00
PROSA
Alma*

Oswald de Andrade

O VELHO e o cãozinho foram andando na sombra enjoada da tarde. Tinham passeado muito. Dobraram a esquina da Rua dos Clérigos. Os vizinhos saudavam-nos. Eram ambos antigos no bairro e na cidade.

Alma havia regressado naquele instante. Retirou a blusa, mostrando ao espelho do seu quarto guindado os alvos seios manchados de apertos.

Pensava: por que será que quando uma porta me machuca, me faz sofrer; quando bato a cabeça numa janela, choro de dor; e ele pode me cortara navalha, não dói: é delicioso!

Mas lembrou-se da Odete, que estivera com Mauro no teatro, ele contara. E ficou dizendo sufocadamente no quarto:

- Canalha! Bandido! Miserável! Miserável!

Transformava-se numa desencantada revelação. Ela fora apenas, até ali, a criança fulva de olhos glaucos, pondo a silhueta destacada e a longa sombra nas corcovas áridas de Oblivion, ao sol, com Jorge, o primo de sorrisos sisudos; e depois da casa de louças fechada, a adolescente imprecisa, a netinha que procurava o banho morno do velho e fazia comer no melhor prato, a cozinha de terra, o cachorro peludo e antigo. Era agora, nos músculos de Mauro a extravasante mulher, deflagrada num embate de complicações e rodeios. 

Chegou-se á janela. Seriam cinco horas da tarde; o velho e o cão passeavam ainda. Olhou a rua e descobriu, parado à esquina, contrito sob o chapéu de palha, o telegrafista pálido que a amava. Não a vira decerto entrar. Se soubesse onde ela andara, o que fizera... Alma teve um arrepio incontido. Se contasse ao avô... Mas não: João do Carmo era um rapaz direito, incapaz dessas torpezas.

Ele já a percebera, decerto, no balcão. Pusera-se a caminhar, num passo medido. Cumprimentou-a. Foi-se. Queria casar-se com ela, mas nunca ousara falar-lhe. 

Pela rua, ia longe uma mulher de branco. Uma carroça passou tilintando. A tarde descorava.

E lá vinha ele de novo! Um súbito nojo invencível tomou conta de Alma. Teve ímpeto de gritar-lhe do balcão que passasse uma vez só, que lhe deixasse ao menos a vontade de vê-lo. 

Fechou num repelão a janela toda. E, no escuro, uma pancada fulminou-a. Mauro!

Caiu no leito.

A máscara alva cascateou um choro desigual, com altos e baixos de animalidade lasciva.

O seu jeito pequenino, o confessionário entontecedor dos seus sonhos... Ali, no roçar dos travesseiros alvos, ela aprendera a embelezar a vida... Desmanchava as tranças vermelhas pelas fronhas, alimentando a voragem íntima. Xingava-o, rolando. Era uma tristeza, no entanto, que pedia mais, esse soluço de ternura divina que a inundava num fluído cálido. Chamava-o com as pernas. Era uma gata ruiva... E esticava-se retesada de semsações para adorá-lo. Vinha-lhe a cabeça uma tonteira gostosa e sentia as pancadas sublimes do seu amor... sim... não... sim... não...

Chegara a visioná-lo tanto, nessa louca ilusão do ser centuplicado, nas sombras benéficas do quarto, que o tinha perto afinal, vitoriosa escrava... sim... não...

Lá fora, na tarde despejada, João do Carmo, com um nó na alma, passava sempre encurtando as contramarchas.

E no desencontrado idílio, como um comentário da vida, ergueu-se, alongou-se pela rua e pelo céu, num pregão triste da cidade:

-Pi... nhão quente!

 

arquivo nacional

oswald miolo

Irreverente, polêmico, irônico e outras palavras emparentadas cabem ao paulistano Oswald de Andrade (1890 - 1954), uma das principais figuras do modernismo brasileiro. Foi poeta, escritor, ensaísta e dramaturgo. Prefiro não me estender sobre o autor, considerando que sofro de uma idolatria ferrenha em torno de seus escritos

 

*Trecho inicial do romance "Alma", que compõe a trilogia "Os condenados" (Editora Civilização Brasileira - 3ª edição - 1978), de Oswald de Andrade. Obra devidamente alojada na biblioteca tyrannus

 


Fonte: Tyrannus Melancholicus
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