ADIR SODRÉ

Uma retrospectiva podre de chique



didi

sem legenda

De passagem pelo Rio de Janeiro fui flagrar a exposição “Podre de Chique”, do saudoso Adir Sodré, um dos mais incríveis artistas que a vida já me apresentou. E aconteceu aquilo que mais estimo quando me deparo com as artes, que é o meu desejo de que eu jamais seja a mesma pessoa ao passar meus olhos pelas invenções que se estatelam diante deles. Não esperava outra coisa, conhecedor que sou do alcance das criações de Didi, como eu sempre gostei de chamá-lo. Foi mesmo muito impactante.

Está num prédio histórico do Rio, o Paço Imperial, que fica na Praça XV, aquele lugar onde se pega a barca rumo a Niterói, meu lugar de nascença, que fica do outro lado da Baía da Guanabara. Preguiçoso que ando sendo na busca da pegada jornalística, prefiro cronificar aqui, me situando livre e aberto para que a escrita flua como que libertinamente na vácuo dos caralhinhos e bucetinhas que se esparramam nos florais do Adir.

Então, desde já, aviso que não sei ao certo (e nem procurei levantar) das informações técnicas sobre a exposição. Tudo bem e vamos lá: fica em cartaz até 23 de outubro e a curadoria coube a Guilherme Altmayer e Leno Veras. “Podre de Chique: uma retrospectiva extraordinária de Adir Sodré” é o nome completo da mostra, evocando já uma expressão que já foi muito usada em Cuiabá. Reúne obras de coleções particulares, muitas delas, desconhecidas do grande público.

recorte

didi capa

Recorte em floral bem ao estilo do artista

Acho que algo em torno de 30 telas, a maior parte de dimensões grandes, muita coisa dos anos 80, quando Adir tinha um traço que se aproximava um pouco do ingênuo, mas sempre com uma criticidade gritante. Nada descia goela abaixo no artista, e tudo reverberava-lhe interiormente explodindo em cores e formas fortes e expressivas. A pessoa que vê uma obra de Adir, nem sempre vai entender do que se trata, mas há de perceber que ali tem coisa, não é só um desenho bonito bem comportado, meramente decorativo.

Fiquei sabendo de “Podre de Chique”, depois que já tinha comprado passagem pro Rio e também me disseram que a maior parte das obras era de acervo particular. “Oba... vou ver quadros que nunca vi”, pensei comigo mesmo e acertei. Fui munido com meu celular iphone, que ganhei há poucos meses e que todo mundo diz que é melhor para fazer fotos. Imaginava me esbaldar clicando, apesar das quase nenhumas qualidades fotográficas que admito não ter. Decepção: a exposição é proibida de se fotografar. Daí que tive problemas pra ilustrar este texto exatamente como queria.

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Arrigo Barnabé e Tetê Espíndola, que embalavam as trilhas sonoras das artes de Adir

Me chamaram muito a atenção dois trabalhos que não conhecia: um autorretrato do Adir em preto, e uma tela onde ele retratou suposta cirurgia em Gervane de Paula, outro grande nome da plástica mato-grossense. Também reparei na cara das pessoas que circulavam pela mostra. Olhares atônitos e até estiquei a orelha pra ouvir um comentário... “tem gosto pra tudo”. E tem mesmo e ninguém é obrigado a gostar desta ou daquela arte. Só acho que ‘não vale’ não fazer nenhum esforço para pelo menos tentar entender o que se vê. Apesar de saber que não é fácil caçar e encontrar palavras adequadas para definir uma carga imagética potente e não usual. 

De passagem pelo Rio de Janeiro, eu vi. Gostei tanto e muito que meus olhos até marejaram um tiquinho. É quando fico com vergonha e temo que me percebam assim tão emocionado só porque vi ou escutei algo que achei bonito, ou lindo. E que saudades das conversações que mantive com Adir, que saiu de fininho durante a pandemia. Da sua energia incontida, da sua inteligência e inventividade. Um artista plástico que discorria livremente sobre literaturas, músicas, cinemas etc. Um artista podre de chique!!!       

didi miolo

Nina Hagen, cantora alemã que também habitava nas sonoridades de Adir

 


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