Lêdo Ivo

Canto Grande


Não tenho mais canções de amor.
Joguei tudo pela janela.
Em companhia da linguagem
fiquei, e o mundo se elucida.

Do mar guardei a melhor ondaque é menos móvel que o amor.
E da vida, guardei a dor
de todos os que estão sofrendo.

Sou um homem que perdeu tudo
mas criou a realidade,
fogueira de imagens, depósito
de coisas que jamais explodem.

De tudo quero o essencial:
o aqueduto de uma cidade,
rodovia do litoral,
o refluxo de uma palavra.

Longe dos céus, mesmo dos próximos,
e perto dos confins da terra,
aqui estou. Minha canção
enfrenta o inverno, é de concreto.

Meu coração está batendo
sua canção de amor maior.
Bate por toda a humanidade,
em verdade não estou só.

Posso agora comunicar-me
e sei que o mundo é muito grande.
Pela mão, levam-me as palavras
a geografias absolutas.


Lêdo Ivo, poeta brasileiro (1924-2012)

Voltar  

Confira também nesta seção:
05.07.22 17h09 » Touro Sentado
27.06.22 20h28 » Gal Freire
20.06.22 15h58 » Michaela Schmaedel
13.06.22 18h08 » Sarah Valle
06.06.22 14h00 » Hu Xudong
30.05.22 14h15 » Carlos "Gato" Martínez
23.05.22 17h29 » Luis Dolhnikoff
16.05.22 17h30 » Renée Ferrer
09.05.22 17h26 » Pedro Vale
02.05.22 14h33 » Jessica Stori
25.04.22 17h43 » Bianca Barbosa
19.04.22 08h00 » Erro de português
19.04.22 00h10 » Kiara Baco Anhôn
08.04.22 16h41 » Cuiabanália
22.03.22 19h36 » Emilio Villa
14.03.22 18h32 » Lua Lacerda
07.03.22 17h14 » Eliete Borges
07.03.22 17h14 » Instruções de bordo*
28.02.22 17h20 » Naomi Shihab Nye
21.02.22 18h00 » Arthur Santos

Agenda Cultural

Veja Mais

Newsletter

Preencha o formulário abaixo para receber nossa newsletter:

  • Nome:

  • Email:


  • assinar

  • cancelar


Copyright © 2012 Tyrannus Melancholicus - Todos os direitos reservadosTrinix Internet